ANCESTRALIDADE: UM AMBIENTE SUFICIENTEMENTE BOM!
ANCESTRALIDADE: UM AMBIENTE SUFICIENTEMENTE BOM!
Olhei para um móvel colocado do outro lado da pequena sala. Não era um sofá convencional. Então pensei: “Eis aí o tal divã”! Mas nas minhas primeiras cinco visitas não me foi permitido deitar nele. Mas me era um imenso desejo sentir aquela maciez imaginária que me devorava.
“Então, fale-me um pouco de você, do porquê de estar aqui…”
Não imaginaria que uma simples pergunta fosse tão difícil de responder! Afinal de contas, quem eu era? Para, de início me defender, perguntei: “Você trabalha com Freud ou Lacan”! Ela apenas me respondeu com um movimento nas sobrancelhas. Entendi o recado.
“Sim, dizem que quando procuramos um analista ou uma analista é para falarmos de nós, da nossa vida, da nossa história; enfim, do que nos vier à cabeça”. Um bom neurótico obssessivo sempre está preparado para situações como essa.
Mas eu não sabia que era tão difícil falar, quando somos convocados, de nós mesmos, de nós mesmas! É que, no cotidiano, mesmo quando achamos que estamos falando de nós, estamos cometendo a audácia de trazer um monte de gente para colocarmos a culpa ou os méritos pelas nossas conquistas ou fracassos. Naquele dia só me veio à mente, o banquinho da minha vó!
Mas não era um “simples banquinho”! Um banquinho que atravessou gerações. Eu fui o primeiro. Há mais ou menos cinquenta anos atrás. Desconfio que esse banquinho ainda existe. Se não me engano, escondido em um cômodo de tranqueiras na casa de uma tia já idosa. Tia que, aliás, ocupou e ainda ocupa o lugar de uma das minhas figuras maternas.
Naquele banquinho tive meus encontros com um dos mais importantes “grandes Outros” da minha vida: minha avó materna. Uma frase: “Nunca ande com a cabeça acima de ninguém; mas, também, nunca abaixo”! Fui o primeiro a ser “educado” nele.
Nele, ouvi histórias fantásticas boas e ruins acerca de um certo tempo. Descobri que minha bisavó havia sido uma negra escrava! Ou como dizia minha avó: “ Ela vivêra no tempo do cativeiro”. Era uma escrava doméstica. Para uma criança igual a mim, histórias interessantes sobre um mundo, até então, apenas imaginado.
Minha avó havia sucumbido à catarata, foi perdendo a visão aos poucos. Meu papel, como neto mais velho, era lhe fazer companhia. E, por tabela, descobrir quem eu era! Naquele dia, ainda antes do divã, comecei a me descobrir. E entender a importância daquele banquinho de madeira.
Relembrei que tive uma infância doce meio a um pomar repleto de jabuticabeiras, parreiras, laranjeiras…. havia, ainda, os animais domésticos, e os rebanhos bovinos, suínos e galináceos! Eu só não tinha amigos! Seria esse o motivo de eu me dar tão bem com a solidão, agora solitude?
As cinco primeiras sessões foram apenas isso tudo: eu e as memórias da escuta no banquinho.Era um ritual: minha avó cozinhando e eu sentindo o cheiro da comida e apreendendo as narrativas sobre o meu passado, minha ancestralidade.
Havia também as “dores necessárias”: a angústia de ter apenas 05, 06 anos e a responsabilidade do cuidado de uma avó praticamente cega e com crises de epilepsia! É claro que esses traumas vieram juntos. Mas, no frigir dos ovos, um “ambiente suficientemente bom”!
A psicanálise nos dá o poder de revisitarmos a criança que ainda somos, as alegrias infantis que esquecemos, os traumas e fantasmas que ainda nos atravessam. Somos a soma disso tudo e de muito mais. No divã, pro qual eu fui, na sexta sessão, escutamos a nós mesmos, a nós mesmas.”Somos, ainda, uma grande parte do que fomos um dia”! A atemporalidade do inconsciente nos ronda a todo o tempo: vivências boas ou ruins, traumas, afetos recalcados. É, sim, Freud nos explica os porquês.
O desafio é se permitir! Ter coragem do reencontro consigo mesmo, consigo mesma. No divã, trazer o “engasgado”, o “não chorado”, aquilo que dói e, inexplicavelmente, não sabemos o porquê!
No meu caso, quando me deitei no divã, tive a sensação de que estava retornando ao banquinho da minha avó. Oportunidade de dialogar com o passado e com o presente no qual eu continuo sendo moldado.
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