A PSICANÁLISE COMO ÉTICA DA LIBERDADE
Freud é fruto do positivismo do século XIX. O lema “Ordem e Progresso” assumia o leme da sociedade da sua época. Freud irá navegar pelas fundamentações médicas do seu tempo, calcada no pressuposto cartesiano de que a razão daria conta de tudo. O positivismo irá atravessar todas as instâncias de saber e movimentos políticos e sociais da Europa, e balizará o olhar do Velho Mundo para o resto do planeta.
Na área da Filosofia e Sociologia irá nascer o chamado Darwinismo Social, a ideia de que a Europa havia chegado ao ápice da civilização; o que não era europeu era primitivo, atrasado. Américas, Ásia e, principalmente África precisavam ser “civilizados”. A subjetividade desses povos, aos europeus, continuava contaminada com a superstição, atraso cultural e científico. Autores como Hegel,antes, já tinham teorizado o triunfo do saber humano no seu texto “A Fenomenologia do Espírito" (1807). E havia deixado esses povos de fora.
Freud surge como um médico-cientista, o que vem depois é História da Psicanálise!
Com Charcot, o encontro com a Histeria, uma epidemia da sua época. Às voltas com o chamado “mal do útero” a medicina procurava respostas na estrutura orgânica da época. As “histéricas de Charcot” desafiavam diagnósticos, produziam espetáculos que ironizavam uma certa arrogância positivista acerca do domínio dos males do corpo e da alma.
As histéricas, e sem elas não haveria a psicanálise, sofriam de reminiscências! De lembranças e afetos recalcados. Não estava no corpo, mas na mente! Freud escandaliza a medicina da sua época, subverte o “Penso, Logo existo” de Descartes! Troca-o pelo “O Eu não é o senhor na sua própria casa”! Mas, então, quem é? A instância do inconsciente! Que não é orgânico, não está dentro de nada, não é palpável. “Está fora”! Lacan dará fim à questão. O inconsciente é estruturado como uma linguagem! Uma linguagem única e que possui uma dinâmica própria. O inconsciente é o “insabível”! Aquilo que “não sei de mim, mas que me atormenta”:meus traumas, minhas vivências ruins que, quando não faladas, fazem metáfora no corpo. As paralisias, os vômitos, as cegueiras, os desmaios, as crises de ansiedade das mulheres e homens, irá descobrir Freud, eram frutos de palavras silenciadas pela repressão e recalque, de choros engolidos, de desejos silenciados.
Freud abandona a hipnose que apenas revelava o trauma mas não o catarseava e passa a usar a livre associação. A chamada “cura pela palavra”. Em síntese, falarmos de alguma coisa que nos leva a sofrer, não é orgânico, mas eu não sei o que é!
Nossas neuroses nascem do existir. Da inevitável necessidade que temos de produzir a nossa vida. Do nosso sentimento de incapacidade diante do desconhecido, do nosso sentimento de uma suposta “falta de amor”; de desejos que gritam em nós e, em virtude de uma ética ou de uma lei moral, que sufoco em mim mesmo.
O neurótico é aquele ou aquela que se angustia por não conseguir “sustentar” o seu real desejo. É aquele ou aquela que sofre por não ser amado ou ser validado. O neurótico vive à sombra de uma “culpa imaginária”. Vive sempre a deslocando para um outro; ou como nos diz Lacan, para o Outro (O grande outro: a sociedade, as leis éticas e morais, a religião, a cultura, a tradição familiar…).
Na psicanálise não temos a "cura" no sentido médico; mas podemos “ganhar a liberdade", em um sentido existencial. A psicanálise não tem a ambição de adaptar o sofredor a uma realidade do mundo; mas libertá-lo da angústia de ser ele mesmo, ela mesma. O método é a escuta e a fala! O remédio, o entendimento e a elaboração que o indivíduo reconstrói acerca de si mesmo no mundo e na vida.
O psicanalista não “mostra o caminho”; e, sim, caminha junto na busca que o paciente ou analisando empreende pelas saídas aos tormentos que lhes são naturais na vida. A esperança do analista é a de que, “achando a saída”, o sujeito “caminhe sozinho”! E já capacitado, depois de passar pelo seu processo de análise, tenha aprendido a se reerguer depois de uma queda, de uma perda, de uma frustração.
Nesse sentido, a psicanálise se apresenta como uma ética: uma ética da liberdade.
Comentários
Postar um comentário