EU SOU…

    

         Por alguns anos, uma antiga e especial foto ficou abrigada em um daqueles pequenos álbuns de lembranças que, antigamente, toda família tinha guardado em um dos lugares seguros da casa. Geralmente dentro de algum tipo de caixa.

Como eu disse, era uma foto especial! Trazia uma pequena família, meio a um quintal onde havia algumas árvores frutíferas, um pequeno canavial, flores. 

Na foto, um homem de meia idade olhando extasiado, com certeza, para o fotógrafo; ainda, uma mulher com um pequena menina no colo e, ao lado dela, um menino negro com sapatos sem cadarços, camisa desarrumada, abraçado ao seu cão de estimação.

Por anos aquela foto me extasiou. Encantava-me os rostos ainda bem jovens dos meus pais, minha irmã ainda pequena, o meu jeito já curioso com a vida. O cenário mágico onde a mesma havia sido produzida. Sim, mágico! Pois era o ambiente da minha infância. Mas, esse texto não é sobre a foto em si. E sim, sobre o que a mesma representou e ainda representa às minhas reflexões existenciais. Meu ponto de partida! 

Aquele momento registrado em preto e branco, em um  pequeno pedaço de papel, sempre me fez refletir sobre o lugar de onde vim, a condição que me abarcava,  o momento onde agora me encontro.

Quem sou eu? Uma indagação existencial que atravessa dez entre dez pessoas em algum momento da vida. Pergunta que nos traz reflexões filosóficas, religiosas, biológicas, antropológicas… Enfim: uma indagação de fundamental importância quando nos ambicionamos a nos localizarmos na vida.

Sim, a humanidade sempre tenta nos defender dessa questão. Explicações não faltam! O ser humano comum geralmente se tendência a se abrigar em algumas das inúmeras explicações filosóficas ou religiosas que se multiplicaram pela História. Isso ajuda a aplacar as angústias da razão e da alma.

Refugiei-me em algumas filosofias: Heidegger, Sartre…. Existir é produzir a si mesmo, a si mesma apesar das facticidades da existência. Nunca me furtei a refletir sobre os desafios e barreiras que poderiam impedir os meus projetos e sonhos. Entre elas, a pobreza, a cor da pele,  o “sistema”! Aquela foto sempre me impulsionava a dar um passo à frente. Onde poderei chegar? O caminho da existência é um inevitável refletir o passado, dobrar as dificuldades do presente, caminhar rumo às incertezas do futuro. 

“Lançados no mundo”! A única certeza no horizonte é a finitude. Esse caminhar rumo a ela não está sob o nosso controle. Mas esse espaço entre o “aparecer” e  “desaparecer” é cheio de possibilidades.

O ressentimento, segundo Nietzsche, pode nos “envenenar”! Remoer o passado que foi doído, apequenar-se perante as barreiras da vida e do mundo, é uma atitude daqueles que vivem, segundo ele, uma “moral de escravos”! Um comportamento daqueles e daquelas que se acovardam perante a possibilidade de construir as suas próprias existências. A existência é para os fortes! Fortes são aqueles que não se tombam às condições que a vida nos apresenta.

“Então, temos uma escolha? Sim, temos”! Respondi a mim mesmo. Sim, somos uma enormidade de coisas. Mas essas coisas ainda não definem a nossa totalidade e nem os nossos limites. Somos seres orgânicos com as nossas dores, alegrias, perdas, conquistas, vitórias, frustrações, pesadelos e sonhos. Mas não devemos  nos assentar sobre essas contingências que nos acompanham durante a caminhada.

O que  podemos fazer de nós mesmos, de nós mesmas? Olhar o futuro e nos “projetarmos” nele ou então nos recolhermos aos determinismos do mundo. Sermos atropelados pelos fatos e pelo tempo. É uma escolha!

A foto ainda existe, não me lembro mais onde. Ela foi o meu espelho. Uma prova de que o tempo passa e nos leva. Somos um fluxo, constante mudança. Contudo a escolha de assentar e ver tudo passar ou nos misturarmos ao vendaval ou à brisa da existência, sermos arquitetos da nossa própria existência, é uma escolha.

Viver é estar sendo…

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