A ALEGORIA DA CAVERNA: QUANDO A VIDA SE TORNA UMA ILUSÃO
A ALEGORIA DA CAVERNA: QUANDO A VIDA SE TORNA UMA ILUSÃO
(Filosofia)
Uma das cenas mais icônicas do primeiro filme da trilogia Matrix é quando, sentados em uma sala escura, os personagens Neo e Morpheus encadeiam um diálogo, sem o qual, a história do filme não teria como prosseguir. Morpheus oferece a Neo duas opções à sua vida: duas pílulas, uma azul e outra vermelha. Na fala, Morpheus alerta: “se engolir a pílula azul, permanecerá no mundo da ilusão; se engolir a vermelha, verás o mundo como ele é! Neo, depois de um momento de hesitação, escolhe a vermelha. O resto é assistir ao filme.
Uma das coisas que pode passar despercebida a um espectador comum é o fato de que Neo não escolhe a pílula vermelha aleatoriamente. Desde o começo do filme, ele é atravessado por um sentimento de que há algo errado com a realidade que o cerca, com o mundo em que vive, com o comportamento aparentemente programado e automatizado das pessoas. Um sentimento que ele não sabe explicar, apenas sente.
No filme, há algo para além daquilo tudo: a maioria dos seres humanos estão na ilusão da Matrix, o mundo real está sob o domínio das máquinas. Hollywood à parte, a ideia da vida e do mundo como uma ilusão não é nova. A milênios é matéria de reflexão da filosofia grega; como também, do pensamento oriental.
Platão, no desenvolvimento da sua teoria do conhecimento, irá nos trazer a sua famosa “Alegoria da Caverna”: imaginemos um grupo de pessoas acorrentadas desde sempre no fundo de uma caverna, de costas para a saída, olhando apenas para uma parede. A iluminação da caverna é feita por uma fraca fogueira, o suficiente apenas para que as mesmas vejam sombras de coisas e pessoas que passam lá fora projetadas na parede, ou muro, que estão à frente dos seus olhos. Como nunca contemplaram o mundo lá fora, aquelas sombras corriqueiras e cotidianas passam a ser vistas como verdades irrefutáveis.
Mas, um belo dia, uma das pessoas rompe as correntes e, com muita dificuldade, consegue chegar até a entrada da caverna. Em um primeiro momento, seus olhos são cegados pelo brilho do sol, depois se adaptam e o fugitivo contempla o mundo real: as coisas como elas realmente são, as pessoas caminhando sem as correntes.
O liberto, depois de um tempo, volta à caverna para contar a novidade aos outros acorrentados. Fala animadamente sobre o que viu. Mas, acostumados à realidade das sombras e presos aos seus próprios pensamentos tidos como verdades; os que estão ali, ainda presos, não acreditam no que escutam, e matam aquele que um dia conseguiu se libertar do jugo daquela prisão..
Platão, no fundo, quer falar da nossa relação com o saber: quem “sai da caverna” é o filósofo, aquele ou aquela que busca a sabedoria das coisas e do mundo. A caverna é o próprio mundo sensível que nos prende às suas correntes materiais, ideológicas, religiosas e políticas; ou até mesmo, às nossas ilusões egóicas.
Quais são as correntes que nos prendem nas ilusões da modernidade? Quais são as pílulas azuis que nos prendem na ilusão da matrix da vida e do mundo atual? Quais são as falsas certezas que nos encarceram na nossa dimensão egóica?
Na “caverna mundo” estamos cada vez mais nos alienando à ilusão das sombras do consumismo, das ideologias, da ilusão do Eu. Exemplo são as mídias digitais que nos oferecem, do outro lado da tela, pretensas fórmulas para o sucesso e para a felicidade. Oferecem-nos produtos, comportamentos, pessoas; pessoas que nem são mais reais; mas avatares de nós mesmos, de nós mesmas.
Um mundo de pretensas verdades; verdades que poucos controlam. A maioria, como marionetes, está perdendo a capacidade de pensar por si mesmos, por si mesmas. Como no filme, milhões de pessoas alimentam o sistema. Fugir disso é um exercício hercúleo de reflexão e vontade. Um caminho que, na maioria das vezes, teremos que fazer sozinhos e sozinhas
Deixar o mundo das sombras e contemplar o sol da realidade pode levar nossos olhos a doer por alguns momentos. Poderemos entrar na dúvida se aquilo vale a pena ou não; como Neo no filme: o que é melhor, a comodidade da ilusão ou os desafios da liberdade existencial? É uma pergunta sobre a vida e sobre incômodo de que, não sabemos o porquê, algo nos incomoda.
Alguns pensadores irão nos trazer que, sim, buscar por si só o entendimento da vida, da existência pode nos ser um fardo. Poderemos pagar o preço da incompreensão e até da solidão. Correremos o risco de sermos “mortos” por aqueles e aquelas que já fundiram à lógica das massas. Poderemos, em um certo sentido, ter uma sensação de que estamos caminhando sozinhos no entendimento das realidades do mundo e da existencialidade. No entanto, o conforto em saber que estamos construindo a nós mesmos, a nós mesmas compensa e nos dá paz.
No fundo é uma escolha: e você, qual pílula está disposto ou disposta a escolher?

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