DORALINDA
De uma história que li em uma crônica policial
Doralinda! Linda até no nome!
Negra retinta, grossos lábios,
belas ancas, coração enorme!
Mas, tinha por dor, ser negra.
Não por complexo de cor,
mas por falta de amor,
por culpa de um homem.
Um sujeito que,
numa noite de lua cheia,
depois de uma cerveja,
teve comportamento disforme:
Chamou-a de negra,
cuspiu em seu rosto,
e para aumentar o desgosto,
tratou-a como coisa.
Coisa ela não era!
Mas dor...
até no nome.
Dor, à linda, o sujeito levou.
Deixou-a complexada, enojada.
condenada por ser bela;
Dizia não saber mais o que é amar.
Por isso ela flagela o coração de Antônio,
que nada sabe da história!
O que é isto, Antônio!
Basta puxar pela memória!
cidade inteira falou!
“Jovem desesperada
quase mata, a facadas,
filho do promotor!”
Sim, a linda foi assediada.
Defendeu-se a unhadas,
gritou até não poder mais!
Mas, na noite de lua cheia,
dia de futebol e novela,
não havia na passarela
uma alma viva sequer!
Linda foi estuprada,
mas se vingou à facadas,
depois que o sujeito...
Bom ... o resto...
Foi encontrada, em desespero,
ao lado do aterro,
e com o coração em pedaços.
A viatura guardou a faca,
levou-a à delegacia,
o homem ao hospital.
Depois de recuperada,
acusaram-na de marcar o encontro,
e depois não querer mais.
Então, a justiça, que é astuta,
considerou-a prostituta.
Segundo ela, pela cor!
(O que não duvido)
Isto já faz tempo, mas,
por dentro,
ela ainda sofre.
Não deixa mais ser amada,
só ser admirada!
Diz ter a alma ferida.
É linda até no nome!
Mas jurou: jamais um homem...
Bom, Antônio, desista!
AZARIAS, Sebastian. Psicanálise, Poesia e Filosofia: memórias poéticas de um menino preto. [S. l.]: IBRAPSI, 2024.

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